Os campeões do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja (DNMP), organizado pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB) sempre apresentaram índices de sustentabilidade superiores à média de sua região.
por Decio Luiz Gazzoni, membro fundador do CESB e Lorena Moura, Coordenadora Técnica do CESB.
Nos Desafios do CESB realizados entre as safras de 2019/2020 a 2024/2025, o CESB e a Fundação Eco+® aplicaram uma ferramenta desenvolvida para avaliações de ecoeficiência das áreas campeãs de produtividade de soja. A Análise de Ecoeficiência (AEE) calcula os impactos ambientais relevantes, baseada em critérios padronizados de Avaliação do Ciclo de Vida (ACV), e agrega o impacto econômico do sistema, obtendo um único indicador combinando os dois aspectos para apoiar decisões estratégicas.
Maiores informações sobre a ferramenta podem ser obtidas em artigo publicado por Grosse-Sommer et al. no Journal of Cleaner Production (bit.ly/4cmMUrJ) e por BASF’s EEA Methodology, 2019 (bit.ly/4hlg4tX).
Ferramenta aderente às normas
A avaliação de impacto ambiental segue as normas ABNT ISO NBR 14040:2009, 14044:2009 e 14045:2015 para a realização da ACV. No diagnóstico gerado pela ACV, os impactos são agregados em um índice de impacto ambiental global, por meio da normalização dos dados.
A verificação de relevância assegura a inclusão das principais categorias de impacto ambientais, que são: 1. Mudanças climáticas; 2. Esgotamento do recurso água; 3. Eutrofização de água doce; 4. Eutrofização marinha; 5. Acidificação; 6. Toxicidade humana; 7. Esgotamento de recursos minerais; 8. Esgotamento de recursos fósseis; 9. Redução da camada de ozônio; 10. Formação de ozônio fotoquímico; 11. Uso da terra.
Os custos dos produtos e/ou processos ao longo do ciclo de vida são determinados de forma semelhante e são combinados com o impacto ambiental para compor um Portfólio de Ecoeficiência e um Índice de Ecoeficiência globais.
A AEE permite comparações entre produtores ou entre um produtor e uma média (municipal, regional, nacional ou de um grupo de produtores), fornecendo informações fundamentais para que um produtor ou um grupo deles possa alterar seu sistema de produção a fim de torná-lo mais sustentável, incluindo maior rentabilidade.
Resultado inicial
A cada safra, o DNMP reconhece os campeões da categoria sequeiro de cada região do Brasil (Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste) e um campeão da categoria irrigada a nível nacional. O produtor que tiver obtido a maior produtividade entre estes seis é condecorado como campeão nacional.
A ferramenta AEE foi utilizada pela primeira vez no DNMP do CESB na safra 2019/2020, cotejando os campeões regionais de produtividade de soja com a média da sua região. Para essa safra específica, efetuaremos uma análise mais detalhada, enquanto, para as demais, apresentaremos dados consolidados, porém os resultados analíticos estão disponíveis no CESB. Assim, a Tabela 1 mostra um comparativo por categoria de impacto entre o campeão nacional (proveniente da região Sul) e a média de sua região.
Tabela 1. Comparativo entre os índices do Campeão Nacional do DNMP e a média de sua região (Sul) e a diferença percentual entre os dois índices, de acordo com a categoria de impacto e suas métricas.
| Categoria de Impacto | Média | Campeão | Diferença (%) |
| Toxicidade Humana (Tox Points) | 307 | 95,4 | -69 |
| Mudanças Climáticas (kg CO2 eq) | 3,72 | 1,51 | -59 |
| Formação de Ozônio Fotoquímico (kg NMVOC eq) | 1,86E-03 | 6,01E-04 | -68 |
| Esgotamento da Camada de Ozônio (kg CFC-11 eq) | 3,87E-09 | 1,39E-09 | -64 |
| Acidificação (Mol H+ eq) | 0,00665 | 0,00218 | -67 |
| Eutrofização Marinha (kg N eq) | 0,00207 | 0,00078 | -62 |
| Eutrofização de Água Doce (kg P eq) | 0,000974 | 0,000351 | -64 |
| Esgotamento do recurso água (m3 world eq) | 4,82E-02 | 1,34E-02 | -72 |
| Esgotamento de recursos minerais e metálicos (kg Sb eq) | 0,0000248 | 0,0000665 | 168 |
| Esgotamento de recursos fósseis (MJ) | 7,22 | 1,21 | -83 |
| Uso da terra (kg C déficit eq) | 1820 | 694 | -62 |
Obs.: Unidade de análise do estudo: um quilograma de soja.
Verifica-se que o produtor campeão de 2019/2020 obteve índices de sustentabilidade superiores à média de sua região – variando de 59 a 83% – com exceção da categoria “Esgotamento de recursos minerais e metálicos”. Esse fato deveu-se à aplicação de gesso agrícola na área do campeão, cujo efeito é computado pela ferramenta integralmente no ano de sua aplicação, apesar de o efeito ocorrer ao longo de diversos anos, até a próxima eventual necessidade de aplicação.
O mesmo fato ocorreu com o produtor campeão da região Centro-Oeste, listado na Tab. 2, em que a eficiência ambiental foi similar à média. Para os demais campeões tanto o ganho financeiro quanto a ecoeficiência ambiental foram superiores à média da região.
Tabela 2. Produtividade do campeão regional (safra 2029/2020), retorno financeiro e ecoeficiência comparando-se o campeão com a respectiva média regional.
| Produtor | Região | Produtividade | Retorno Financeiro** | Ecoeficiência Campeão | ||
| Kg/ha | Média*** | Campeão | Econômica | Ambiental | ||
| Laércio Dalla Vechia | S | 7.129 | 1,50:1 | 2,80:1 | 46% | 24% |
| Antônio de Oliveira Neto | SE | 7.118 | 1,80:1 | 2,70:1 | 31% | 48% |
| Elizeu José Schaedler | S* | 6.716 | 1,20:1 | 2,10:1 | 41% | 22% |
| Elton Zanella | CO | 6.191 | 1,40:1 | 1,80:1 | 10% | – |
| Condomínio Milla | N-NE | 6.107 | 1,40:1 | 3,20:1 | 58% | 55% |
*Irrigado – ** Retorno = Renda líquida / Investimento – *** Média da região
Para conferir uma dimensão aos ganhos de sustentabilidade do campeão nacional (Laércio), observa-se que houve uma redução de 59% na emissão de gás carbônico equivalente, ou seja, de 2.200 kg CO2 eq por tonelada de soja produzida. Se todos os sojicultores da região Sul do Brasil (região do campeão) produzissem com os mesmos índices de sustentabilidade do produtor campeão, a redução seria de 75 milhões de toneladas de CO2 eq, o que equivale a 1,4 milhão de viagens de um caminhão, em volta da Terra!
Nesta mesma edição do Desafio, o Condomínio Milla mostrou ser 55% mais eficiente que a média das regiões Norte e Nordeste, reduzindo o consumo de água em 35% em relação à média regional. Se todos os sojicultores da região produzissem com a mesma ecoeficiência do campeão, seriam poupados 117 bilhões de litros de água, o que equivale ao consumo regional de água por 16 dias!
Desafios CESB das safras 2020/2021 a 2022/2023
Na edição do Desafio de 2020/2021, para obter a mesma produção da média regional, a propriedade campeã, localizada na região Sul, apresentou uma redução de 54% no uso da terra. Comparativamente à média regional, o volume de emissões foi 47% menor, o esgotamento de recursos minerais e metais foi 76% menor e a eutrofização de água doce 63% menor. Se todos os produtores da região Sul obtivessem o mesmo perfil de emissões do campeão, haveria uma redução de 27 milhões de toneladas de CO2 eq, o que equivale às emissões de um milhão de viagens de caminhão na distância entre o Brasil e a China.
O campeão nacional no Desafio 2021/2022 reduziu a pegada de carbono de seu sistema de produção para 0,63 kg de CO2 eq/kg de soja, comparado a 1,39 kg de CO2 eq da média regional (Sudeste), diretamente atribuível à produtividade do campeão, que é mais que o dobro da produtividade média da região Sudeste. Dessa forma, a área de cultivo necessária para produção de 1 kg de soja é menor, resultando em menores emissões referentes ao critério Mudança de Uso da Terra.
Os corretivos de solo são insumos que têm alta representatividade nas emissões de CO2, sendo que o campeão teve um consumo 78% menor quando comparado a média. Especificamente, o consumo de fertilizantes foi 50% menor para o campeão, comparado à média da sua região (Sudeste). Além disso, campeão Nacional apresentou pegada hídrica de 19 litros de água por kg de soja produzida, enquanto a média regional foi de 25 litros.
No Desafio de 2022/2023, a pegada de carbono na lavoura do campeão nacional foi de 0,27 kg de CO2 eq, comparado a 0,69 kg de CO2 eq da média de sua região (Sudeste), em grande parte devido à produtividade 55% maior que a média regional. Também contribuiu o menor uso de corretivos, que equivaleu a apenas 25% do consumo médio da região, bem como de fertilizantes, que foi 78% menor para o campeão. O consumo de água do campeão foi 65% inferior à média regional: foram 17 litros/kg de soja, comparados à média de 49 litros/kg de soja para a região.
Para esta edição do Desafio, pode-se efetuar a seguinte comparação: se todos os produtores da região Sudeste apresentassem os mesmos índices de sustentabilidade do campeão, haveria uma redução de 5,5 milhões de toneladas de CO2 eq, o que equivaleria ao sequestro produzido por 39 milhões de árvores em uma floresta, ou ainda às emissões de 104 mil viagens de caminhão em volta da Terra. Em termos monetários, estima-se que as emissões evitadas, valoradas pelo mercado de créditos de carbono, equivaleriam a 449 milhões de euros.
Desafios CESB das safras 2023/2024 e 2024/2025
A propriedade campeã do Desafio de 2023/2024 localiza-se na região Sul, produziu 34% mais que a média da região e apresentou uma pegada de carbono de 0,25kg CO2 eq / kg de soja, enquanto a média regional foi de 0,67 kg CO2 eq/kg de soja. A pegada hídrica da campeã foi 29% inferior à média regional, com um consumo de 20 litros de água/kg de soja, influenciada, entre outros fatores, pela redução de 50% no consumo de pesticidas.
As equivalências mostram que, se todos os produtores da região Sul apresentassem os mesmos índices de sustentabilidade do campeão, seriam evitadas emissões de 17 milhões de toneladas de CO2 eq., o que equivale à absorção de 126 milhões de árvores ou às emissões de 334 mil viagens de um caminhão médio, dando a volta na Terra. O valor em crédito de carbono das emissões evitadas seria de 1,2 bilhão de euros.
Em 2024/2025, o campeão do Desafio apresentou uma pegada de carbono de 0,38 kg CO2 eq/kg de soja, comparativamente a 0,64 kg CO2 eq/kg de soja da média de sua região (Sul). O consumo de corretivos e de fertilizantes foi 62% e 49% menor, respectivamente, em relação à média da região Sul, também reduzindo o uso de pesticidas em 16% em relação à média. O consumo de água foi 54% menor e o de recursos fósseis 18% menor que a média regional.
Se todos os produtores da região Sul, em 2024/2025, houvessem apresentado a mesma ecoeficiência do campeão, seriam evitadas emissões de 9 milhões de toneladas de CO2 eq, o que equivale à absorção efetuada por 70 milhões de árvores, ou às emissões efetuadas por 186 mil viagens de caminhão ao redor da Terra. O valor das emissões evitadas foi calculado em 709 milhões de euros, se comercializadas no mercado de carbono.
Conclusão
O aumento da produtividade de soja, entre os participantes do Desafio CESB de Máxima Produtividade, implica em ganhos consistentes de sustentabilidade, de acordo com as categorias de impacto e as métricas internacionalmente aceitas, utilizadas na ferramenta de Análise de Ecoeficiência, que estabeleceu os índices de sustentabilidade, o que inclui maior rentabilidade. Esse ganho é verificado pelo contraste entre os índices obtidos pela aplicação da ferramenta na lavoura campeã e utilizando-se a média dos participantes do Desafio, localizados na mesma região.
Assim, justifica-se um slogan divulgado pelo CESB: Não basta ser campeão de produtividade, tem que ser sustentável.
DLG é presidente do Conselho Curador do CESB; LM é coordenadora técnica do CESB