Soja, bioinsumos e abelhas: tudo a ver!

27 de out de 2026.

por Decio Luiz Gazzoni, membro fundador do CESB.

A Embrapa publicou um estudo inédito e interessante, envolvendo as comunidades de abelhas em lavouras de soja de Goiás, onde são utilizados bioinsumos (bit.ly/47wRSiO). O estudo investiga a diversidade de abelhas associadas ao cultivo de soja no sudoeste de Goiás e avalia como diferentes níveis de adoção de bioinsumos, e de práticas ligadas à agricultura regenerativa, influenciam a estrutura dessas comunidades. Também analisa a importância da vegetação nativa remanescente próxima às lavouras para a conservação dos polinizadores. O trabalho foi conduzido em sete áreas comerciais de produção de soja, localizadas nos municípios de Rio Verde e Montividiu, inseridas no contexto do Projeto Regenera Cerrado.

O documento parte do reconhecimento de que as abelhas desempenham função essencial na agricultura mundial. Embora a soja seja predominantemente autopolinizada, diversos estudos demonstram que a visitação por abelhas aumenta a eficiência reprodutiva da cultura. A polinização realizada por esses insetos contribui para maior formação de vagens, maior número de sementes e melhor qualidade dos grãos, que também ficam mais pesados. No Brasil, pesquisas relatadas pelos autores indicam ganhos de produtividade da ordem de 13% a 18% em áreas visitadas por polinizadores. Além disso, o valor econômico atribuído ao serviço de polinização da soja foi estimado em cerca de US$ 26 bilhões por safra, evidenciando a relevância econômica do tema.

Fundamentos do estudo

            Na publicação, os autores apresentam uma revisão sobre a biologia floral da soja. Apesar de a espécie possuir mecanismos que favorecem a autopolinização, suas flores produzem néctar e atraem diferentes espécies de abelhas. Quando uma abelha pousa para se alimentar, seu peso promove a abertura das estruturas florais, facilitando o contato com os órgãos reprodutivos da planta. Isso possibilita tanto a autopolinização assistida (pólen retirado do da antera e depositado no estigma da mesma flor), quanto a polinização cruzada entre flores e plantas diferentes. Como consequência, há aumento da fecundação dos óvulos e melhoria do desempenho produtivo da cultura.

            Outro aspecto destacado pelos autores é que o Brasil possui mais de 1.900 espécies descritas de abelhas, mas apenas uma pequena parcela havia sido registrada como visitante floral da soja, antes deste levantamento. Dessa forma, um dos objetivos centrais do trabalho foi ampliar o conhecimento sobre quais espécies utilizam os cultivos de soja como fonte de recursos e como elas respondem aos diferentes sistemas de manejo agrícola.

O trabalho no campo

            As coletas foram realizadas semanalmente durante a floração da soja, entre novembro de 2023 e janeiro de 2024. Foram utilizados dois métodos complementares: coleta ativa, com rede entomológica; e coleta passiva, por meio de armadilhas coloridas do tipo pan trap azul. Além das áreas cultivadas, foram amostrados fragmentos de vegetação nativa adjacentes às lavouras, compostos por remanescentes de Cerrado com diferentes características estruturais.

            Os talhões estudados apresentavam distintos níveis de adoção de bioinsumos. Para quantificar essa condição, os pesquisadores desenvolveram um índice baseado no tipo e na frequência de aplicação de fertilizantes, fungicidas, herbicidas e inseticidas. Produtos de menor impacto ambiental, especialmente bioinsumos microbiológicos e fertilizantes orgânicos, receberam classificação mais favorável. Produtos químicos sintéticos com maior risco ecológico, receberam pontuações mais elevadas. Dessa forma, foi possível relacionar o padrão de manejo agrícola às características das comunidades de abelhas encontradas.

Resultados

            Ao todo, foram coletados 11.199 insetos pertencentes a diferentes grupos. Considerando apenas as abelhas, registraram-se 764 indivíduos distribuídos entre as cinco famílias conhecidas para o Brasil: Apidae, Halictidae, Andrenidae, Megachilidae e Colletidae. Foram identificadas 53 espécies, número expressivo para um único sistema agrícola. Desse total, cerca de 89% dos indivíduos correspondiam a espécies nativas, enquanto apenas 11% pertenciam à espécie exótica Apis mellifera, que é a abelha africanizada, criada por apicultores.

            Um dos resultados mais relevantes foi a constatação de que 40 espécies ocorreram nas áreas cultivadas e, entre elas, 27 representam novos registros para a cultura da soja. Esse achado demonstra que a diversidade de polinizadores associados à soja brasileira é significativamente maior do que se conhecia anteriormente.

            A vegetação nativa mostrou-se fundamental para a manutenção das comunidades de abelhas. Os fragmentos de Cerrado atuam como refúgios e locais de nidificação, fornecendo recursos alimentares e abrigo para diversas espécies. Os autores observaram que o aumento da distância, em relação às áreas naturais, provocou redução da riqueza e da abundância de abelhas nativas. Diversas espécies foram encontradas exclusivamente nos fragmentos de vegetação, reforçando a importância da conservação desses ambientes dentro das propriedades rurais.

            A pesquisa também avaliou a eficiência dos métodos de coleta utilizados. As armadilhas pan trap mostraram desempenho muito superior ao da rede entomológica para o levantamento da diversidade local. Enquanto apenas sete espécies foram registradas exclusivamente pela rede, as armadilhas detectaram 28 espécies exclusivas. Os autores concluem que o método passivo é mais eficiente para inventários de diversidade em lavouras de soja, embora a coleta ativa continue importante para estudos específicos sobre interação flor-polinizador.

Espécies coletadas

            Entre as espécies mais frequentes nas áreas cultivadas destacaram-se representantes dos gêneros Dialictus e Exomalopsis, além das espécies A. mellifera, Peponapis fervens e Trigona spinipes. Muitas dessas espécies já possuem histórico reconhecido de atuação como polinizadoras agrícolas.

            As análises ecológicas revelaram características importantes sobre a biologia das espécies encontradas. Mais de 60% das abelhas registradas constroem seus ninhos no solo. Esse resultado sugere que práticas agrícolas capazes de minimizar a compactação e o revolvimento excessivo do solo podem favorecer a sobrevivência desses organismos. Cerca de 18% das espécies utilizam cavidades em troncos e árvores, demonstrando a necessidade de preservar remanescentes florestais para garantir locais adequados para reprodução.

            Em relação ao comportamento social, predominam espécies solitárias, que representam aproximadamente 45% do total registrado. Abelhas eusociais, como algumas meliponíneas e a abelha africanizada, correspondem a cerca de 18,5%. Essa predominância de espécies silvestres, não manejadas, significa que a conservação dos habitats naturais é muito importante, pois muitas dessas abelhas não podem ser facilmente utilizadas em programas convencionais de polinização assistida. Portanto, preservá-las, vai redundar em um benefício direto para o agricultor, como o incremento da produtividade da soja.

Abelhas e insumos

            A avaliação dos efeitos dos insumos agrícolas demonstrou resultados bastante significativos. O uso intensivo de inseticidas e fungicidas sintéticos, além de outros produtos de maior risco ambiental, alterou a estrutura das comunidades de abelhas. Os sistemas mais dependentes desses produtos apresentaram perda de equitabilidade, ou seja, poucas espécies passaram a dominar a comunidade, enquanto espécies mais sensíveis se tornaram raras ou desapareceram. Esse fenômeno foi interpretado pelos autores como um processo de “filtragem ambiental”, provocado pelos insumos químicos.

            Em contraste, lavouras que adotavam maior proporção de bioinsumos e produtos classificados como de menor impacto ecológico, apresentaram comunidades mais equilibradas e funcionalmente diversificadas. A diversidade não se expressou apenas em número de espécies, mas também na distribuição mais uniforme dos indivíduos entre elas, fator considerado essencial para a estabilidade ecológica dos sistemas produtivos.

            Outro resultado importante foi a constatação de que riqueza de espécies e abundância isoladamente não são indicadores suficientes da qualidade ambiental. Algumas áreas fortemente manejadas com produtos químicos apresentaram números elevados de indivíduos, porém dominados por poucas espécies oportunistas e tolerantes aos distúrbios. Assim, métricas conjuntas de população, diversidade e equitabilidade mostraram-se mais adequadas para avaliar o real estado das comunidades de polinizadores.

Concluindo

            Como conclusão, os autores afirmam que a combinação entre agricultura regenerativa, maior uso de bioinsumos e preservação da vegetação nativa cria condições mais favoráveis para a manutenção das abelhas em paisagens agrícolas. A redução do uso de pesticidas e fertilizantes sintéticos, associada à conservação de fragmentos naturais e à adoção de práticas que minimizem perturbações do solo, contribui para preservar a biodiversidade e fortalecer os serviços ecossistêmicos de polinização. Essas medidas beneficiam simultaneamente a produtividade agrícola, a sustentabilidade ambiental e a conservação dos polinizadores nativos.

            O estudo demonstra que sistemas de produção de soja mais próximos dos princípios da agricultura regenerativa e com maior uso de bioinsumos tendem a abrigar comunidades mais diversificadas e equilibradas de abelhas. A vegetação nativa do Cerrado emerge como elemento-chave para sustentar essas populações, reforçando a ideia de que conservação da biodiversidade e produtividade agrícola podem ser objetivos complementares dentro dos agroecossistemas modernos.

Decio Luiz Gazzoni – é engenheiro agrônomo, pesquisador bolsista de inovação da Embrapa, membro da Academia Brasil de Ciência Agronômica, do Cons.Consultivo Agro Sustentável, do Comitê Estratégico Soja Brasil, da Rede Soja Sustentável e do Cons Científico da ABELHA.